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Terça-feira, Janeiro 27, 2004

MATRIX 2003

por Maria Lucia Victor Barbosa, sociologa (em 29/12/2003)



Matrix foi uma das melhores obras cinematograficas a que assisti em toda minha vida. Para a maioria dos que viram os efeitos especiais e as sequencias rapidas das cenas de luta, pode ter restado apenas a perplexidade e a sensacao de muita violencia, entretanto, o filme eh riquissimo em significados, nele nao faltando temas por certos antigos, mas que relembram velhas duvidas do ser humano: somos regidos pelo destino ou possuimos livre arbitrio? Eh este mundo pleno de ilusoes criadas para que possamos suportar a realidade? Essas e muitas outras consideraçoes filosoficas, misticas e politicas permeiam toda a trama da fantastica estoria onde nao falta a luta do bem contra o mal, a figura do redentor, a tematica da liberdade ou da submissao a um poder mais alto.

Neste ano de 2003, a propaganda gerada pelo governo foi de tal modo intensa que nao posso deixar de recordar Matrix, pois a ficçao politica em que se vive parece alienaçao mantida pela "pilula azul". Nem o desemprego recorde, nem o crescimento da violencia nos meios rural e urbano, nem a queda da renda, nem o sucateamento da ciencia e da tecnologia, nem a deterioraçao da Saude e da Educaçao, nem os desacertos sempre presentes nos ministerios, nem o loteamento de cargos entre os que "tem lado", nem as "maldades" cometidas contra os mais velhos, nem as varias greves havidas, nem a insatisfaçao latente e crescente de muitos e importantes grupos de interesse, nem a "compra" desvairada de votos no Congresso por parte do governo, nem a inoperancia havida nos programas sociais, nem o crescimento quase zero do PIB, foram assimilados como fatos negativos pelo grosso da populaçao.

No dia de Natal, como presente regio aos brasileiros, apareceu na tela encantada da Internet o balanço do Palacio do Planalto. Em 138 paginas foram contadas as glorias e as vitorias de um governo onde so existem acertos. Quem leu tal relatorio deve ter terminado com a impressao de que nossa historia eh dividida em duas partes: a.L (antes de Lula) e d.L (depois de Lula). Antes, o caos, depois, a plenitude paradisiaca. Em nosso reino de maravilhas nao ha mais fome, miseria, corrupçao, injustiça. Os "gols contra" nao passaram de episodios engraçados, que devem ser debitados a inexperiencia dos que agora dirigem os destinos da Naçao do alto do Poder Executivo. As praticas antes criticadas com rigor passaram a ser aceitas como naturais. Tudo eh justificado. Tudo eh perdoado. Tudo eh perfeito e o Brasil, atraves de um salvador, se impoe ao mundo que prazeroso se curva diante do colosso da America do Sul. No Brasil-Matrix todos sao felizes, assimilando a felicidade que se irradia do lider maximo que, exuberante de poder, contente da vida, realizado no luxo da corte a todos energiza com sua alegria, independentemente do aumento de taxas e impostos, da queda do poder aquisitivo, do tormento do desemprego.

"O tempo da incerteza passou", disse o presidente da Republica, para afirmar logo depois: "2004 nao sera o ano de meus sonhos". Diferentemente do filme, porem, falta-nos um oraculo, que mesmo de maneira velada possa indicar o futuro ou pelo menos traduzir a dubiedade da fala presidencial. Mas mesmo sem um piton, eh provavel prever que nem em 2020 teremos evoluido muito mais do que agora. Nossa "embriogenia defeituosa" ainda pesara e continuaremos presos a nossa visao de mundo que se compraz como a dependencia do pai Estado cada vez mais avantajado; que aceita como natural o patrimonialismo, o clientelismo e o nepotismo contidos na esfera estatal; que se inclina com prazer aos sistemas ditatoriais, pois necessita de um salvador que aparente resolver todos os problemas de seus amados filhos. Seguiremos atribuindo nossos males a fatores externos e jamais aos nossos proprios comportamentos e atitudes. Afetaremos cordialidade sabendo sermos violentos. Conviveremos com Poderes ineptos por comodismo ou covardia. Finalmente, compartilhando com a raça humana o irracionalismo que caracteriza o homem, preferiremos sempre a ilusao a realidade, a mentira a verdade, a sujeiçao a liberdade.

No mais, como escreveu Maquiavel em "O Principe", o "tempo passa indiferente sobre o bem o e mal".


posted by Cezar 11:20

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